terça-feira, 30 de janeiro de 2018
REFORMA E O PENTECOSTALISMO
Assim, embora o pentecostalismo tenha origem na
Igreja Primitiva de Atos, o pentecostalismo contemporâneo é resultado dos
movimentos de Reforma da Igreja e dos que se seguiram a estes. Portanto, os
pentecostais são protestantes, embora algumas igrejas queiram deter para si a
exclusividade e o monopólio deste conceito. Aliás, é de bom alvitre lembrar que
o pentecostalismo é o maior representante do protestantismo em tempos
hodiernos, e que as Assembleias de Deus estão na vanguarda da mensagem
pentecostal: “Jesus Cristo salva, cura, batiza no Espírito Santo e breve
voltará!”
A REFORMA, A JUSTIFICAÇÃO PELA FÉ E A MECÂNICA DA SALVAÇÃO
A doutrina da justificação pela fé é considerada como a grande
verdade que a Reforma Protestante restituiu à Igreja. Lutero vivia atormentado
com o seguinte raciocínio: “Se Deus julga o homem de acordo com a sua estrita
justiça, quem poderá ser salvo?”. Em sua cela no convento de Erfurt, o monge
lutava contra os desejos de sua carne, confessava semanalmente os delitos
cometidos, flagelava o corpo e jejuava até a exaustão em busca de paz. Em certa
ocasião escreveu: “Eu era o homem mais miserável da terra. Dia e noite eram
gritos e desespero, e ninguém podia ajudar-me”1. E, foi somente após compreender a
expressão “o justo viverá pela fé” (Rm 1.17) que encontrou alívio para sua
alma:
Ao entender a justificação não como transformação, mas como uma
declaração judicial divina em nosso favor a partir tão somente da fé no
sacrifício expiatório de Cristo na cruz do Calvário por nós, o fardo sobre as
costas de Lutero finalmente caiu 2;
A
doutrina da justificação pela fé ensina, em termos gerais, que o pecador é
justificado (absolvido da condenação do pecado) unicamente pela fé na graça
divina. Assevera que a salvação é dom gratuito e imerecido de Deus aos
pecadores e que só pode ser recebida por meio da fé (Ef 2.8,9). Significa dizer
que as obras humanas não podem salvar, mas apenas a fé em Cristo por meio da
recepção da graça de Deus. Ao descrever a ação divina para nos justificar, os
termos usados na Bíblia apontam para o contexto judicial e forense. Em outras
palavras, Deus torna livres os pecadores condenados e os declara plenamente
justos e isentos de toda culpa, mediante a fé na obra de Cristo na cruz. Quanto
a esta verdade, o Novo Testamento jamais afirma que a justificação é “dia
pistin” (“em troca da fé”), mas sempre “dia pisteos” (mediante
a fé). Isto significa que a fé não é meritória, ou seja, a fé é o meio de se
receber a justificação. Deste modo, a justificação pela fé está atrelada a
graça divina:
A Bíblia deixa duas coisas bem claras. Em primeiro lugar, não é
por causa de nenhuma boa obra de nossa parte. Realmente, “Cristo morreu
debalde” se a justiça provém da obediência à Lei (Gl 2.21) [...] Em segundo
lugar, no próprio âmago do Evangelho encontra-se a verdade de que a
justificação tem sua origem na graça de Deus (Rm 3.24) e sua provisão no sangue
que Cristo derramou na cruz (Rm 5.19), e nós a recebemos mediante a fé (Ef 2.8) 3.
Lutero
ao receber a paz que vem mediante a fé escreveu: “Finalmente compreendi que a
justiça de que fala o evangelho é aquela pela qual Deus, em sua graça, nos
justifica. Imediatamente senti que renascia para uma nova vida” 4. Por ter sido fundamentada nas
Escrituras, a justificação pela fé inevitavelmente conduziu a Reforma ao
princípio de “sola scriptura” e seus desdobramentos como o “sola
gratia” (somente a graça), o “sola fides” (somente a fé) e ainda o “sola Christus”
(Somente Cristo). Todos estes princípios estão presentes na doutrina da
justificação pela fé. Em consequência, Lutero afirmava que “a doutrina da
justificação não é apenas mais uma doutrina; é o artigo fundamental da fé, pelo
qual a igreja se firmará ou cairá e do qual depende toda a doutrina”5.
Contudo,
o desenvolvimento desta doutrina culminou em divergências quanto a “mecânica da
salvação”. Este termo cunhado por Silas Daniel indica que os reformadores eram
concordes quanto à mensagem e o método da salvação, mas discordavam de temas
doutrinários acerca da eleição, predestinação, livre-arbítrio, presciência e
soberania de Deus. Ao dirimir tais diferenças, a posição pentecostal quanto à
justificação pela fé e a mecânica da salvação pode ser observada nos artigos de
fé 5, 6 e 7 do “cremos” (credo menor) das Assembleias de Deus que confessa
crer:
“Na pecaminosidade do homem, que
o destituiu da glória de Deus e que somente o arrependimento e a fé na obra
expiatória e redentora de Jesus Cristo podem restaurá-lo a Deus (Rm 3.23; At
3.19). Na necessidade absoluta do novo nascimento pela graça de Deus mediante a
fé em Jesus Cristo e pelo poder atuante do Espírito Santo e da Palavra de Deus
para tornar o homem aceito no Reino dos Céus (Jo 3.3-8, Ef 2.8,9). No perdão
dos pecados, na salvação plena e na justificação pela fé no sacrifício efetuado
por Jesus Cristo em nosso favor (At 10.43; Rm 10.13; 3.24-26; Hb 7.25; 5.9)” 6
Estas
verdades centrais presentes no “credo menor” são pormenorizadas na “Declaração
de fé” (credo maior) da seguinte forma:
“A salvação está disponível a
todos os que creem [...] A predestinação genuinamente bíblica diz respeito
apenas à salvação, sendo condicionada à fé em Cristo Jesus, estando relacionada
à presciência de Deus [...] A graça de Deus é manifestada salvadoramente
maravilhosa, perfeita; entretanto, não é irresistível [...] A
fé antecede a regeneração [...] Foi Deus quem tomou a iniciativa na salvação
[...] É por meio da graça que Deus capacita o ser humano para que ele responda
com fé ao chamado do evangelho [...] os seres humanos, influenciados pela graça
que habilita a livre escolha, são livres para escolher [...] Deus proveu a
salvação para todas as pessoas, mas essa salvação aplica-se somente àquelas que
creem [...] Nesse sentido, não há conflito entre a soberania de Deus e a
liberdade humana” 7
Como
é possível perceber no credo das Assembleias de Deus, a soteriologia (doutrina
da salvação) é concorde com a doutrina da “justificação pela fé” e com a
“mecânica da salvação” arminiana. De acordo com Silas Daniel, o ensino
arminista, quanto ao assunto, pode ser resumido do seguinte modo:
“Aquele que é salvo em Cristo
não fez nada para ser salvo, pois sua salvação foi totalmente propiciada por
Deus; ele apenas recebeu, passivamente, confiantemente e de mãos vazias, aquilo
que de graça foi feito por Deus em seu favor, algo que ele não podia fazer por
si mesmo. E ele só pode receber a salvação porque Deus, pela sua graça, ativou
seu livre-arbítrio para as coisas espirituais, sua capacidade de responder
positivamente ao chamado divino para ser salvo, a qual havia sido comprometida
após a Queda. Tudo vem de Deus” 8
Fundamentado
então nos princípios teológicos da Reforma, o credo das Assembleias de Deus
ratifica a doutrina da justificação pela fé e reconhece que tudo procede de
Deus, ou seja, a salvação por meio da fé e o livre-arbítrio para crer são
dádivas divinas, contudo, o credo assembleiano exorta que embora a salvação
seja oferecida gratuitamente a todos os homens, uma vez adquirida, deve ser
zelada e confirmada.
Pense
nisso!
Douglas Roberto de Almeida
Baptista
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A REFORMA PROTESTANTE E AS ORDENANÇAS
A igreja católica da Idade Média, por ocasião do
Concílio de Constança (1415) vedara aos fiéis à participação do vinho por
ocasião da celebração da Ceia do Senhor (eucaristia). Pouco mais de 100 anos
após este Concílio, em 1519, o reformador alemão Martinho Lutero (1483-
1546) publicou alguns sermões “sobre os sacramentos” apontando o erro em não
servir o cálice aos servos de Cristo. No dia 6 de outubro de 1520 em sua obra “Do
cativeiro babilônico da Igreja” o reformador dedicou-se, entre outros
temas, a defender a participação dos leigos tanto no pão como no vinho por
ocasião da Ceia do Senhor. Neste escrito Lutero desfez exegeticamente as teses
contrárias, estabeleceu a comunhão do pão e do cálice para todos os crentes e
concluiu:
“Mateus, Marcos e
Lucas concordam entre si que Cristo teria dado todo o sacramento a todos os
seus discípulos, e é certo que Paulo tenha dado as duas espécies; de modo que
nunca houve alguém tão desavergonhado ao ponto de afirmar outra coisa [...] É
ímpio e tirânico negar ambas as espécies aos leigos, nem esta nas mãos de anjo
algum e menos ainda do papa e de qualquer concílio”[1].
Nesta mesma obra, Lutero discordou da doutrina da
transubstanciação definida no IV Concílio de Latrão, em 1215. Esta
teoria escolástica ensina que na ocasião da consagração do pão e do vinho
eles se transformam literalmente no corpo e no sangue de Cristo. O reformador
foi incisivo ao afirmar que não sendo possível “supor uma transubstanciação
feita pelo poder divino, deve-se tê-la por ficção da mente humana, pois não se
apoiam em nenhuma Escritura, nem em nenhum argumento racional”[2]. Não obstante, Lutero defendia o
principio da ubiquidade (faculdade divina de estar presente no pão e no vinho).
Em contrapartida para o reformador na Suíça, Ulrico Zwinglío
(1484-1531) a Ceia do Senhor devia ser entendida como memorial e
comemoração, uma representação simbólica do ato sacrificial único e suficiente
de Cristo[3]. Assim, os reformadores discordaram
conceitualmente acerca da instituição da Ceia do Senhor. Para Lutero a ceia era
um sacramento (meio de graça) e para Zwinglío uma ordenança (uma ordem de
Cristo). O reformador holandês Jacó Armínio (1560-1609) também
discorreu sobre o tema no debate LXIV, onde ensinou:
“A matéria é o pão e o vinho que, com
respeito á sua essência, não são alterados, mas permanecem o que eram
previamente; tampouco, são, com respeito a lugar, unidos ao corpo ou ao sangue,
de modo que o corpo não está sob o pão, nem no pão, nem como o pão, etc., nem
no uso da Ceia do Senhor, o pão e o vinho podem ser separados, de modo que,
quando o pão é oferecido aos leigos, o cálice não lhes deve ser negado” [4]
Concordes com os reformadores em que os elementos
da Ceia do Senhor (pão e vinho) devem ser servidos para todos e que os
elementos não sofrem transubstanciação, embora com as devidas peculiaridades
quanto à significação de tal ordenança, a “Declaração de Fé”, o credo maior
assembleiano professa o seguinte a respeito da Ceia do Senhor:
“Rejeitamos o termo “sacramento” e
usamos a palavra “ordenança”, do latim ordo, “fileira, ordem”
[...]. Essas ordenanças não transmitem qualquer poder místico ou graça
salvífica, mas são um rito simbólico universal e pessoal que apontam para as
verdades centrais da fé cristã [...] Ela é ministrada a todos os crentes
em Jesus, batizados em águas, em plena comunhão com a Igreja [...] Tendo
Jesus ministrado pessoalmente os dois elementos aos seus discípulos, fica
cabalmente demonstrado que as expressões “isto é o meu corpo” e “isto é o meu
sangue” não são literais, mas referem-se a uma linguagem metafórica”.[5]
Deste modo, a Assembleia de Deus reconhece
que a ordenança da Ceia foi instituída diretamente pelo Senhor Jesus para
todos os crentes, que deve ser celebrada após um autoexame e reflexão
sobre a conduta pessoal, sendo um rito contínuo da Igreja visível,
instituído com dois elementos – o pão e o cálice - como memorial da morte de
Cristo até a sua vinda em poder e glória (1Co 11.26).
Não menos importante, outro legado da Reforma Protestante
diz respeito ao batismo nas águas. O movimento da Reforma sofreu transformações
cruciais à medida que ia se afastando cada vez mais do ranço doutrinário
imposto pela igreja medieval. Lutero ensinava que o batismo era submersão e que
a sua eficácia não estava na fé de quem batizava, mas na fé de quem recebia.
Discorria o reformador que o batismo significava duas coisas: morte e
ressurreição, isto é, a justificação plena e consumada[6]. Por outro lado, Lutero defendia o
batismo infantil aceitando a fé substitutiva dos pais, padrinhos e da igreja.
Sob este aspecto Lutero foi seguido por Zwinglío e também por João Calvino
(1509-1564), o reformador da França.
Todavia, em consequência do princípio de “Sola
Scriptura” outros reformadores argumentavam que o batismo infantil não era
bíblico. Afirmavam não existir, no Novo Testamento, nenhuma menção quanto a
esta prática e nenhuma ordenança para o batismo de crianças. Doravante,
passaram a ensinar que somente o adulto atendia à pré-condição para o batismo,
ou seja, a fé evidente, obviamente a fé era algo inatingível para bebês e
recém-nascidos. A este ensino e prática deu-se o nome de “anabatismo” (batizar
de novo). Por volta de 1525, o anabatismo suíço emergiu dos discípulos radicais
de Zwínglio. Entretanto, o maior expoente anabatista foi o holandês Menno
Simons (1496-1561). Menno ao estudar Lutero, Zwínglio e Calvino chegou a
conclusão que “todos estavam equivocados sobre o batismo infantil”[7], e assim, em 1532 começou a pregar a
partir da Bíblia Sagrada a necessidade dos adultos batizarem-se novamente.
No “credo menor” assembleiano, o item nove professa
a crença “no batismo bíblico efetuado por imersão em águas, uma só vez, em
nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo” [8] (Mt 28.19; Rm 6.1-6; Cl 2.12). A
“Declaração de Fé” amplia este entendimento e ensina que “o batismo é uma
ordenança divina; é, em si, um ato de compromisso e profissão de fé; é um ato
público em confirmação daquilo que já possuímos — a salvação pela fé em Jesus”
e ainda acrescenta que o batismo infantil não é praticado “por não haver
exemplo de batismo de crianças nas Escrituras e por não ser o batismo um meio
da graça salvadora” [9].
Conclui-se então que o resgate das ordenanças
segundo o modelo bíblico é resultado dos movimentos de Reforma da Igreja, e
ainda, que o credo das Assembleias de Deus – o maior movimento pentecostal
brasileiro – também no quesito das ordenanças encontra-se em sintonia com o
credo dos reformadores.
Pense nisso!
Douglas Roberto de Almeida Baptista
quinta-feira, 28 de dezembro de 2017
A REFORMA PROTESTANTE E A DECLARAÇÃO DE FÉ DAS ASSEMBLEIAS DE DEUS
Na noite de 31 de outubro de 1517, o reformador alemão Martinho Lutero
(1483- 1546) afixou na porta da igreja do castelo de Wittenberg 95 teses contra
as indulgências da igreja medieval. As teses sacudiram o país alemão e em pouco
menos de trinta dias já tinham chegado à Itália. Escritas em latim, às teses
foram traduzidas para o alemão, holandês e espanhol. Cerca de quatro anos
depois o Imperador Carlos V convocou sua primeira dieta imperial na cidade de
Worms para entre outros assuntos colocar um fim na reforma deflagrada por
Lutero. Os trabalhos iniciaram em fevereiro e se estenderam até o mês de maio
de 1521. No dia 18 de abril, uma quinta feira, Lutero foi conduzido ao local da
assembleia que se encontrava lotada, o número dos que ocupavam as ante-salas,
as janelas e as escadarias somavam 5 mil pessoas [1]. Na ocasião, o reformador
foi instigado a retratar-se de seus escritos e sua resposta diante daquela
multidão entrou para a história como uma declaração de convicção e fé nas
Escrituras Sagradas:
“Minha consciência está atrelada à palavra de Deus. Enquanto não me
tiverem convencido pelas Sagradas Escrituras, não posso nem quero retratar-me
de coisa alguma, pois é perigoso agir contra a consciência” [2]
Como resultado de sua postura, no dia 26 de maio de 1521, um decreto
imperial conhecido como Edito de Worms condenou o reformador por heresia,
determinou a execução da bula papal com a excomunhão e ordenou a queima dos
escritos e livros de Lutero. O edito também autorizava a prisão e o saque dos
bens de todos quantos aderissem ou simpatizassem com as ideias do reformador.
Mesmo diante de tal nefasto decreto, a reforma não pode ser contida. Desse
modo, em 1529, Carlos V voltou a convocar à Dieta Imperial, desta vez na cidade
de Espira, com a intenção de combater a reforma, ratificar o Edito de Worms e
impor o catolicismo na Alemanha. A reunião transcorreu no período de 19 a 25 de
abril daquele ano. Após intensos e calorosos debates em que os representantes do
imperador e do papa desejavam suspender o direito a liberdade religiosa e
restabelecer a religião católica no país, os líderes alemães indignaram-se e
redigiram um documento de protesto. Ao total, seis príncipes assinaram e 14
cidades imperiais livres subscreveram a carta:
“Protestamos pelos que se acham presentes [...] que nós, por nós e pelo
nosso povo, não concordamos de maneira alguma com o decreto proposto, nem
aderimos ao mesmo em tudo que seja contrário a Deus, à Sua santa Palavra, ao
nosso direito de consciência, à nossa salvação. [...] Por essa razão rejeitamos
o jugo que nos é imposto. [...] Ao mesmo tempo estamos na expectativa de que
Sua Majestade imperial procederá em relação a nós como príncipe cristão que ama
a Deus acima de todas as coisas; e declaramo-nos prontos a tributar-lhe, bem
como a vós, graciosos fidalgos, toda a afeição e obediência que sejam nosso
dever justo e legítimo” [3]
A partir deste episódio histórico os adeptos e simpatizantes das ideias
de Lutero com a consequente reforma da igreja receberam a alcunha de
“protestantes”. Já o conceito de “protestantismo” surgiu no século XVI com o
propósito de fundir uma série de eventos que contribuíram para a transformação
da igreja cristã. Na verdade, após as 95 teses de Lutero, a igreja experimentou
programas de reformas diversos e distintos em todo o mundo. Porém, foi a partir
de Wittenberg que a teologia escolástica e o aristotelismo deram lugar a uma
nova teologia com ênfase na Bíblia. O lema adotado por Lutero “renovar e não
inovar” passou a ser um padrão para o protestantismo onde o movimento se
instalava. Como resultado dessas transformações surgiram uma variedade de
ramificações e denominações cristãs e cada qual adotou um modelo de reforma
para ser seguido.
Em decorrência, os reformadores nem sempre estavam concordes em suas
posições doutrinárias. Desde o começo aconteceram divergências quanto à
necessidade de reformar este ou aquele ponto doutrinário. Evidente que estes
fatos não são deméritos e nem colocam a reforma em descrédito. A reforma deve
ser entendida como um movimento de transformação. Como se convencionou afirmar
“sempre reformando”. E já no período clássico da reforma surgiu a “reforma
radical” que desejava não apenas reformar, mas restaurar a igreja à sua pureza
original. Essa ênfase foi considerada uma “reforma da Reforma”, ou uma
“correção da correção do catolicismo” [4]. Deste modo, no período da Reforma,
confissões, credos e declarações de fé protestantes passaram a ser promulgadas.
Estes documentos depois de aprovados passavam a ser a interpretação autorizada
das Escrituras como norma de fé e prática deste ou daquele determinado segmento
protestante.
Assim, as confissões de fé tornaram-se marcas da Reforma Protestante, dentre
elas, destacam-se a Confissão de Augsburgo (Lutero), elaborada por Filipe
Melânchton em 1530; as Confissões Helvéticas (Zuínglio), a primeira em 1534, e
a segunda em 1566, sendo esta preparada por Heinrich Bullinger; a Confissão de
Fé Gaulesa (João Calvino), elaborada em 1559; a Confissão de Fé Escocesa (John
Knox), preparada em 1560; a Confissão Belga (Guido de Brés), elaborada 1561; o
Catecismo de Heidelberg (Ursino e Oleviano) em 1567; a Confissão de Fé da
Igreja Anglicana (Matthew Parker) escrita em 1552 e revisada em 1563; a
Remonstrância (Armínio), escrita em 1610 e que culminou com a Confissão
Arminiana em 1621, elaborada por Simão Episcópio. E por fim, a última delas no
período da Reforma, a Confissão de Fé de Westminster (Britânica), produzida
entre 1643 e 1647.
Mercê destes fatos e seguindo o legado dos reformadores, as Assembleias
de Deus no Brasil, no ano de aniversário de 500 anos da Reforma Protestante e
no período pós-centenário do pentecostalismo assembleiano, por ocasião da 42ª
Assembleia Geral Ordinária da CGADB (Convenção Geral das Assembleias de Deus no
Brasil), em abril de 2017, aprovou por unanimidade de seus Ministros a sua
“Declaração de Fé”. O documento é constituído de 16 artigos de fé intitulado de
“cremos” o que pode ser considerado como “credo menor” e a “Declaração de Fé”
propriamente dita que contém 24 capítulos e que pode ser identificada como
“credo maior”. O documento ressalta a marca pentecostal das Assembleias de Deus
enquanto desponta como a maior denominação religiosa protestante do país. No
entanto, a primordial finalidade da “Declaração de Fé” das Assembleias de Deus
é usar o documento como proteção contra os modismos e as falsas doutrinas,
contribuir para a unidade do pensamento teológico e ortodoxia cristã para “que
digais todos uma mesma coisa” (1 Co 1.10) e, de modo especial, fazer com que
tudo culmine para a Glória de Deus (Soli Deo Gloria).
Douglas Roberto de Almeida Baptista
Pense nisso!
Referências bibliográficas
[1] JUST, Gustav. Deus despertou Lutero. Porto
Alegre: Concórdia, 2003. p. 77.
[2] SAUSSURE, A. de. Lutero o grande reformador.
Rio de Janeiro: Vida, 2003. p. 73.
[3] D’AUBIGNÉ, M. História da Reforma do Século
XVI. Genebra, 1846. Lv. 13, cap. 6. p. 964
[4] GEORGE, Timothy. Teologia dos Reformadores. São
Paulo: Vida Nova, 2007. p. 254.
A QUESTÃO DA IDEOLOGIA DE GÊNERO
Introdução
As Ciências Sociais ensinam que as
desigualdades sociais entre os sexos são o resultado de relações históricas de
opressão e preconceito. A este entendimento dá-se o nome de “questão de
gênero”. Essa concepção não reconhece que as características físicas e
biológicas de alguém devam ser usadas como parâmetro comportamental. Nessa
perspectiva, refutam a ideia de que o “sexo masculino” deva se comportar como
menino e de que o “sexo feminino” deva se comportar como menina. Alegam que o
comportamento social esperado de homens e mulheres é estabelecido pela cultura
e não pelas questões físicas e biológicas.
Ideologia
Influenciado pelas
ideias do inglês John Lock, o filósofo francês Destutt de Tracy desenvolveu o
conceito de “ideologia”. A palavra é composta pelos vocábulos gregos “eidos”
que indica “ideia” e “logos” com o sentido de “estudo” e “raciocínio”. De modo
singular significa “o conhecimento sobre as ideias”.
Karl Marx
Nos escritos do
filósofo alemão Karl Marx a ideologia deixa de ser apenas “o conhecimento das
ideias” e passa a ser um “instrumento” que serve para assegurar o domínio de
uma classe ou grupo social que impõe aos outros os seus ideais de
comportamento.
Gramsci
O filósofo e político
italiano Antônio Gramsci reinterpretou as teorias de Marx e deu especial
atenção às ideias e a cultura como campo estratégico de lutas. Na sua visão o
processo de dominação deve ser feito pelo convencimento e pela imposição da
ideologia de uma classe ou grupo social sobre os outros.
Para tanto, Gramsci
recomenda a reforma intelectual e moral da sociedade por meio de pessoas
influentes que possam manipular a opinião pública e assim modificar o senso
comum do “certo” e do “errado”.
Homem coletivo
Com o uso intenso da
mídia dissemina-se uma “nova cultura” e cria-se o “homem coletivo” que
passivamente aceita e assimila a “filosofia nova” e passa a pensar igual a todo
mundo.
Patrulhamento ideológico
A partir do “senso
comum modificado” pelas novas ideias, quem ousar discordar sofrerá o
patrulhamento ideológico. O propósito é
desprestigiar quem se manifesta contrário à ideologia. As pessoas que oferecem
resistência são estigmatizadas e acusadas com termos pejorativos tais como
“fundamentalista”, “homofóbico”, “preconceituoso”, “machista”, “racista” e
“reacionário” dentre outros.
Politicamente correto
Por meio do
patrulhamento são construídas muralhas invisíveis que amordaçam o cidadão
temeroso da censura. Assim a liberdade de expressão é controlada pelas grades
do “politicamente correto”. O cidadão passa a falar somente aquilo que não lhe
trará censura ou repreensão.
Ideologia e
identidade de Gênero
Quanto à sexualidade
a ideologia ensina que à orientação do desejo sexual não é determinada pela
constituição anatômica do corpo humano. Neste caso, consideram que a atração
pelo sexo oposto corresponde a determinados estereótipos e papeis sociais
previamente estabelecidos pelo contexto histórico, político e cultural da
sociedade.
Desse modo os padrões
de cultura vigente devem ser desconstruídos, para isso a identidade de gênero e
a orientação sexual devem ser consideradas como algo natural que vai moldar a
pessoa ao longo da vida, por exempolo, a criança passa a decidir depois de crescida
se quer ser menino ou menina. Daí o interesse descarado e depravado da
ideologia em alcançar as crianças por meio das chamadas cartilhas e temáticas
homoafetivas.
Consequências da
ideologia de gênero
Quando se adota a ideologia de gênero
como parâmetro ou medida, os valores e os conceitos tornam-se relativos. A
começar pelo postulado básico da “identidade de gênero” toda a relação sexual
consentida será considerada moralmente boa e, portanto lícita e aceitável, não
sendo passível de crítica ou condenação por parte da sociedade e das
autoridades públicas.
Práticas que hoje são
moralmente condenadas passarão a ser consideradas igualmente lícitas tanto do
ponto de vista moral, legal e jurídico. Depravações como zoofilia (sexo do
homem com animais); necrofilia (atividade sexual com cadáver) e até a pedofilia
(sexo de adulto com criança) serão toleradas como resultado da aceitação da “ideologia de
gênero”.
A exposição do
Santander
Sabemos que os defensores da
ideologia vão fazer barulho e discordar da afirmação feita acima. No entanto,
não se pode negar os fatos que estão bem diante dos nossos olhos. Vou citar
somente um exemplo que comprovam com dados reais o que pretende esta ideologia
que inevitavelmente vai desaguar em depravação
moral. Vejamos: ao estilo proposto por Gramsci a fim de modificar o senso comum
por meio da arte, neste mês de setembro, a exposição do Banco Santander reuniu
em Porto Alegre-RS, 270 trabalhos de 85 artistas que abordavam a temática LGBT,
questões de gênero e diversidade cultural.
Grande parte destes
trabalhos afrontavam símbolos religiosos cristãos e faziam apologia à zoofilia,
pedofilia, sexo grupal e defesa do homossexualismo. Tudo isto financiado com
isenção fiscal, cerca de 800 mil reais, captados por meio da Lei Rouanet – de
incentivo à Cultura.
Após inúmeros
protestos nas redes sociais a exposição foi cancelada. Ato contínuo, os
defensores da ideologia deram início ao “patrulhamento ideológico” ao estilo
proposto por Gramsci desqualificando seus opositores com variados termos
pejorativos. Não enxerga quem não quer ver.
Considerações Finais
Em contraste a esta
ideologia, as Escrituras asseveram que o Criador, ao formar o homem e a mulher,
declarou solenemente: “deixará o varão o seu pai e a sua mãe e apegar-se-á à
sua mulher, e serão ambos uma carne” (Gn 2.24). Portanto, biblicamente a
orientação e o desejo sexual estão direta e intrinsicamente relacionados às
características físicas (sexo masculino e feminino) do ser humano e não com o
construto cultural da sociedade.
Douglas Roberto de Almeida Baptista
PENSE NISSO!
Pense Nisso! A IDEOLOGIA DE GÊNERO
O que significa Ideologia de Gênero?
Todos nascem homens ou mulheres?
Quais as implicações Legais, Morais e Éticas acerca
dessa Ideologia?
Qual é a perspectiva cristã acerca da Ideologia de
Gênero?
Karl Marx ensinou sobre ideologia?
O que pretendia a exposição do Santander?
FÓRUM CPAD DE TEOLOGIA PENTECOSTAL
Nos dias 15 e 16 do mês
de setembro, ocorreu a terceira edição do Fórum CPAD de Teologia Pentecostal. O
evento ocorreu em Maceió-AL, igreja presidida pelo Pr. José Orisvaldo.
Os preletores foram os
Pastores Douglas Baptista (DF), Isael de Araujo (RJ) e Esequias Soares (SP).
Foram dias de regozijo espiritual e estudo das Sagradas Escrituras.
Jesus Cristo Salva, Cura,
Batiza com Espírito Santo e breve voltará!
sábado, 9 de setembro de 2017
FIDELIDADE NA IGREJA: VIRTUDE DO CRENTE SALVO
1. Constantemente tenho usado uma frase que
tomei emprestada, provavelmente a tenha lido em algum lugar, porém não consigo
recordar o autor. Não obstante, este lapso de memória a frase é extremamente
profunda e diz o seguinte: “A obra de Deus não é feita pela maioria e sim pelos
fiéis”.
2. Concordo plenamente com a afirmação e assino embaixo. Contudo,
quem são estes fiéis? Onde estão? Como identificá-los? Como resposta, posso
assegurar que os fiéis são a boa semente da parábola do trigo e o joio (Mt
13.38). Aqueles que já ressuscitaram com Cristo buscam as coisas do alto e não
as que são da terra (Cl 3.1-2). Aqueles que em nada tem a sua vida por
preciosa, contanto que cumpram com alegria o ministério que lhes foi confiado
(At 20.24). Aqueles que não buscam reconhecimento do homem e trabalham com
sinceridade e humildade buscando a glória de Deus e de seu reino (Fp 2.3).
3. Trabalhar com os fiéis é uma das grandes gratificações e
alegrias do ministério pastoral. Poder contar com a fidelidade e o carinho daqueles
que nos ajudam a ombrear a causa do Mestre é algo confortante e altamente
satisfatório. Nos dias sombrios e difíceis, nos dias de batalha espiritual e
até nos problemas financeiros pode-se contar com os fiéis, eles estão ali
prontos, disponíveis e preparados para o combate, basta chamá-los.
4. Grande é a satisfação pastoral em poder contar com seus filhos
na fé que andam na verdade (3Jo 1.4). É gratificante notar o crescimento e o
amadurecimento espiritual daqueles que estão conosco na jornada para a Canaã
Celestial. Paulo depois de tratar, corrigir, exortar e ensinar a igreja em
Corinto pode exclamar com júbilo: “Regozijo-me de em tudo poder confiar em vós”
(2Co 7.16).
5. O comportamento dos fiéis serve de exemplo para toda membresia.
Suas vidas estão escondidas em Cristo. Velhos hábitos e costumes antigos foram
arrancados, abandonados e substituídos pelo Fruto do Espírito Santo (Gl
5.22-23). A vida que agora vivem na carne, vivem-a na fé em Jesus Cristo (Gl
2.20) e a paz de Deus domina seus corações fazendo-os serem agradecidos (Cl
3.15).
6. Apresentam-se para contribuir e ajudar sem qualquer outra
intenção que não seja o crescimento da igreja. São dotados de ética, lisura e
disciplina cristã. Não se intrometem se não forem chamados e nem emitem opinião
ou palpites se não conhecerem profundamente o assunto. Servem pelo motivo certo
e no lugar certo.
7. Este comportamento são virtudes adquiridas como resultado de
uma vida de temor e comunhão com Deus. Fiéis como este é possível confidenciar
assuntos delicados. A eles é possível confiar as variadas e múltiplas
atividades da igreja. Os fiés também demonstram preocupação sincera com o bem
estar social e a saúde do pastor e de sua família. Prestam apoio despretensioso
e não exigem retribuição. Reconhecem seus líderes e os possuem em estima e
consideração (1Ts 5.12-13).
Qual o seu parecer?
Pense nisso!
Douglas Roberto de Almeida Baptista
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